Ave migratória (Em 11/04/13)

Celi Aurora

O imigrante
Marcelo Ferreira de Menezes

Alguns índios norte-americanos acreditam que, quando alguém morre, sua alma migra para o animal que regia sua personalidade enquanto vivo. Vi que isso era mesmo verdade logo após minha morte. Compreendo bem agora o porquê é difícil de se acreditar nisso: a transição é brusca e aparentemente sem explicação.
Morte tola a minha. Trinta anos de experiência na polícia deveriam ter sido suficientes para eu não disparar acidentalmente contra meu peito. Mas acidentes acontecem. Não senti nada. Quando abri os olhos, eu estava dentro de um ninho em um arbusto de tamanho médio. Meus braços tinham se convertido em asas, todo o meu corpo estava coberto de penas e minha boca era então um delicado bico. Eu virara um passarinho, mais precisamente um canário.
Estava em uma espécie de chácara ou sítio. Fosse o que fosse, como recém-pássaro, eu havia perdido minha capacidade de linguagem. Hoje recuperei parte dela, mas na época era muito difícil compreender mesmo as coisas mais simples para um ser humano.
Havia ali um senhor, que me alimentava com uma fruta vermelha e adocicada. Ele estava sempre assoviando uma antiga melodia; sempre a mesma. Parecia um homem inofensivo, mas uma noite, enquanto eu tentava adormecer, vi quando ele arrastou o corpo inerte de uma jovem e o enterrou bem embaixo da árvore de frutos vermelhos. Só algum tempo depois, minha mente de canário percebeu que eu presenciara um crime.
Os dias se passavam, e o velho continuava a me alimentar com os frutinhos vermelhos; eu comia por instinto, pois tinha fome. No entanto, parte de mim compreendia que ele era um assassino perigoso, mesmo que a palavra assassino não estivesse formulada no meu entendimento. Vi mais outras duas jovens serem enterradas no mesmo lugar.
Não só os humanos podem se lembrar de vidas passadas; animais também podem. Eu comecei a ter lampejos de minha recente encarnação como policial. Lembrei-me de que eu e meu parceiro estávamos à caça de um serial killer, cujas vítimas eram jovens meninas. Sem dúvida era o velho. Decidi que tinha de entregá-lo logo, antes que ele ceifasse a vida de mais uma jovem.
Durante semanas voei à casa de meu parceiro e me esbati contra o vidro da janela de seu quarto e de seu carro, tentando alertá-lo. Inútil; ele apenas me espantava para longe. Cantarolava esganiçadamente o dia inteiro na janela da delegacia. Não estava dando certo. Até que decidi pensar com minha cabeça de passarinho e descobri que a solução passava necessariamente pela minha garganta.
Não me foi difícil aprender a melodia assoviada pelo velho: Love me tender; Elvis tinha sido meu ídolo. Além disso, voando por toda a região, descobri que, somente naquele sítio, havia a tal fruta vermelha e saborosa que me alimentava.
Então, passei a depositar o pequeno fruto todos os dias no batente da janela de meu parceiro, enquanto cantava, ou assobiava como dava, a canção. Depois de muito lançar fora as bolotas, finalmente o formato do fruto lhe chamou atenção; além de vermelho, ele tinha partes brancas e pretas que faziam com que se parecesse com um olho. A canção também deu certo.
Samanta! ele chamava sua mulher intrigado. Eu estou malucou ou esse passarinho aqui está assoviando Love me tender, do Elvis?
Mas ele só resolveu mandar o fruto para o laboratório quando eu levei para ele algo realmente valioso: um cordão de ouro que caíra do pescoço de uma das vítimas. A intuição de meu amigo fez o restante. O cordão foi reconhecido como o que usava uma jovem dada como desaparecida.
Numa manhã eu vi finalmente meu parceiro entrando na propriedade do velho. De meu ninho, acompanhei os passos dos dois; conversavam. “É ali! Elas estão enterradas bem ali!”, eu cantava freneticamente agitando minhas asas. Meu companheiro parecia não ver nada de errado no lugar. Chutava um monte de folhas aqui, um punhado de terra ali. Chegaram perto do arbusto e meu parceiro colheu um dos frutos vermelhos. Os dois riam. Ambos apertaram as mãos e meu amigo se dirigiu para a saída. Ele estava indo embora. Quase voei até ele para lhe ferrar uma bicada na cabeça. Não foi preciso.
O velho, que acompanhava a partida de meu amigo de forma sinistra e apoiado no cabo de um ancinho, pôs-se assoviar aquela melodia. Meu parceiro estacou e se virou lentamente, atravessando o assassino com um olhar agudo. Acenou com a cabeça, sorriu novamente, entrou no carro e partiu.
Mais tarde, toda a central estava de volta com cães farejadores. Havia corpos enterrados por toda a propriedade. E não só isso. Um dos agentes, ao arrombar a porta de um celeiro, trouxe à luz mais horror: havia outras jovens, prontas para o abate.
E foi exatamente enquanto elas deixavam em prantos o cativeiro é que recuperei num clarão toda a lembrança de minha última vida humana. Eu era um homem maduro, policial experiente, morto por uma fatalidade; mas eu era mais: eu era também um pai de família. Lembrei-me disso quando vi uma das meninas deixando atônita e fragilizada aquele tenebroso celeiro: era minha filha.
Vida e morte continuarão sempre como dimensões que se estendem muito além de qualquer compreensão, seja ela humana ou animal. Hoje não distingo a fronteira entre as duas. Não muito tempo depois desses fatos, tive de abandonar meu pequeno e emplumado corpo de canário para imediatamente assumir uma nova forma. Assim segue o mistério da vida. Não sei nada sobre ele; sou um imigrante e vivo somente com uma certeza: a de que a Providência jamais age de forma acidental.