"Quando acordei, o dinossauro ainda estava lá." (Em 04/11/2013)

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    "Miniconto, ou microconto, ou nanoconto, é uma espécie de conto muito pequeno, produção esta que tem sido associada ao minimalismo. Embora a teoria literária ainda não reconheça o miniconto como um gênero literário à parte, fica evidente que as características do que chamamos de miniconto são diferentes das de um 'conto pequeno'. No miniconto, muito mais importante que mostrar é sugerir, deixando ao leitor a tarefa de 'preencher' as elipses narrativas e entender a história por trás da história escrita.
       O guatemalteco Augusto Monterroso é apontado como autor do mais famoso miniconto, escrito com apenas trinta e sete letras:
Quando acordou o dinossauro ainda estava lá.
       Assim como Monterroso, o norte-americano Ernest Hemingway é autor de outro famoso miniconto, com apenas vinte e sete letras, mas que encerram toda uma história de tragédia familiar:
Vendem-se: sapatos de bebê, sem uso."


(http://pt.wikipedia.org/wiki/Miniconto)
    

Redija um texto narrativo em que o trecho abaixo (o miniconto de Augusto Monterroso, adaptado para a proposta) se encaixe-se de forma coerente:

         Quando acordei, o dinossauro ainda estava lá.

Obs.: O termo dinossauro pode ser interpretado denotativa ou conotativamente.



Sem medo do escuro
Yan Menezes Carneiro da Silva

     A noite sempre me assustava. Acordava por diversas vezes e com medo. Um dia meu avô veio até mim e me deu um pequeno presente.
     — Aqui, — disse-me carinhosamente meu avô — trouxe um presente pra você.
     — Mas o que é isso, vô?
     — Esse é o mais feroz dos dinossauros, o maior dos maiores, o mais corajoso. Vai te proteger à noite contra o bicho-papão.
      — Verdade, vô?
    — Verdade, netinho. Só não deixe de procurá-lo quando acordar. Ele sai à noite enquanto você dorme pra espantar o bicho pra bem longe.
      — Brigado, vô! — disse eu, dando-lhe um abraço bem apertado.
    Toda noite eu colocava o pequeno dinossauro em cima da estante ao lado da minha cama, e sempre que eu acordava, o dinossauro já não estava mais lá.
     — Cadê o dinossauro, pai?
     — Não viu? O dinossauro e seu avô lutaram a noite toda contra o monstro que tentou entrar no seu quarto.
     Corri pela casa atrás de meu dinossauro e o achei na cozinha. Cada dia era uma nova história, e o dinossauro sempre aparecia em um lugar diferente. Eu já dormia sem medo, pois sabia que havia alguém a me proteger.
    Certo dia quando acordei, o dinossauro ainda estava lá, parado no mesmo lugar em que havia deixado. Pensei se não havia sido atacado por monstros na madrugada, se meu avô teria lutado sozinho. Levantei da cama e corri atrás do meu avô. “Pai, cadê o vô? Mãe, cadê o vô?” Ninguém respondia. Corri até a praça em que ele sempre ficava com seus velhos amigos e nada de meu avô. Rondei a casa novamente e não consegui encontrá-lo. De repente meu pai entrou pela porta.
      — Pai, cadê o vô?
      — O vô tá bem, filho, vai voltar logo. Ele pediu que entregasse isso a você.
     O pai me deu um bilhete de meu avô, que dizia: “Netinho, eu e o dinossauro já não podemos mais lutar. Agora é a sua vez.” O bilhete manuscrito tinha a letra tremida e borrada de água. Fiquei pensando onde estaria o meu avô.
    No mesmo dia, meu avô chegou em casa. Já não se lembrava de mim nem do dinossauro. Rapidamente percebi que agora era minha vez. Eu que iria tomar conta do meu avô. Já não tinha mais medo do escuro. Eu que iria protegê-lo à noite e lhe contar histórias pela manhã.