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A natureza do texto descritivo

Em uma de nossas aulas, foi proposto o seguinte tema descritivo:


Apesar das dificuldades que tenho de enfrentar para concluir minha formação de sargento, a paisagem da Escola (instituição militar de ensino técnico) é o refrigério da minha alma.

Como resultado da proposta, apresentamos o texto que se segue, de autoria do professor Marcelo Ferreira de Menezes:

Campo dos sonhos

Sempre fui cuidadoso nas minhas escolhas para o futuro. Sabia que, para que pudesse proporcionar conforto e bem-estar para a família que pretendo construir com minha noiva, a boa escolha da carreira a ser seguida seria determinante. Por isso, não tive dúvidas quando recebi aquele pequeno folheto me convidando a participar do processo seletivo para o curso de formação de sargentos de aeronáutica. Estudei muito, passei nos exames e aqui estou. Sou aluno da Escola (...). Apesar das duras provas que tenho de enfrentar todos os dias, a paisagem da escola é o refrigério da minha alma.
O caminho que leva ao portão de entrada da instituição técnica já é uma doce recepção da natureza aos futuros sargentos brasileiros. Uma estrada bem-pavimentada, cercada de plantas de vários tipos que se alternam com coqueiros e pequenas palmeiras, sentinelas de nossas aspirações. Uma belíssima escultura de um avião de caça, imponentemente montado sobre um pedestal, defende a guarita na qual se encontram os soldados. Como estamos num vale, ao redor e ao longe, destacam-se verdes encostas, elevando-se acima de todas as outras a Serra da Mantiqueira, essa gigantesca e antiga muralha natural. Ao longo de toda a alameda que conduz aos galpões, alojamentos e prédios que compõem a escola, enfileiram-se painéis de azulejo, nos quais reproduções de pinturas conhecidas, paisagens e cenas históricas remetem ao universo aeronáutico de nosso país.
A escola, por exibir gramados irretocáveis e árvores floridas por todas as partes, mais lembra um horto florestal. Há lagos onde marrecos desfilam preguiçosos e bois mansos vêm matar a sede; o maior e mais aprazível é coroado com a belíssima residência do Comandante da escola. A praça larga onde se realizam as formaturas exibe o prédio do Comando; todo branco e sisudo, ele é o símbolo máximo do respeito que inspira a vida militar. À esquerda e ao alto, podemos ver a vila dos oficiais, com suas caprichosas casas, de jardins frescos e bem-tratados, à sombra dos agradáveis eucaliptos que se lançam cada vez mais altos. O visitante pode ver, estando nessa vila, o telhado dos galpões, cada um de uma especialidade diferente, alinhados em perfeita harmonia com todo o restante da paisagem. Muito ampla, a escola, que já foi um centro de estudos agrícolas, exibe contornos de fazenda e, além disso, possui um bem-cuidado complexo esportivo, onde se realizam os jogos olímpicos dos alunos.
A formação de um sargento da Aeronáutica pressupõe desafios impossíveis de serem imaginados por quem está de fora do processo. Somos exigidos em cada instante e ao máximo de nossas forças. Mas ela nunca me faltará, pois, na própria escola, com sua paisagem paradisíaca, sempre encontrarei o refrigério necessário para mais um dia de desafios.


Comentários
Como se sabe, o primeiro parágrafo é chamado de introdução e tem uma dupla função: ao mesmo tempo em que ele deve conter o mínimo de informação relevante, essa informação deve ser apresentada de uma forma atraente para que o leitor se sinta interessado pela leitura do texto. É essa dupla função que permite ao produtor do texto uma liberdade maior ao redigir o primeiro parágrafo, como se pode observar em "Campo dos sonhos".
Para mencionar a escola em questão, conforme prescrevia o tema, o produtor do texto fez uma breve retrospectiva autobiográfica. No entanto, como o texto deve atender às exigências impostas pelo tema, que determinam que ele seja descritivo e que o objeto de descrição seja a paisagem dessa instituição de ensino, essas divagações devem se limitar ao primeiro parágrafo, do contrário pode-se correr o risco de o objetivo do tema não ser atingido.


                                           
Uma estrada bem-pavimentada, cercada de plantas de vários tipos que se alternam com coqueiros e pequenas  palmeiras, sentinelas de nossas aspirações.

Bom, agora é hora de passar para o segundo parágrafo, o qual, vale lembrar, não é mais a introdução. Viu? Não é tão difícil assim começar um texto, como em geral se pensa. Mas ainda temos um certo caminho a percorrer e, a essa altura, já é preciso desenvolver o tema, afinal, ao ler o texto, o leitor deve ser capaz de visualizar — mentalmente, é claro — a paisagem proposta, a saber, a própria escola.
Como ela é? A sua fachada? Onde ela se situa? Qual a paisagem que a circunda? Ela tem algo que a torna única, diferente das outras escolas? Quando a observo, que emoções ela desperta em mim? Se conseguirmos responder a essas perguntas, estaremos com certeza fazendo uma descrição da paisagem da Escola.

 
Uma belíssima escultura de um avião de caça, imponentemente montado sobre um pedestal, defende a guarita na qual se encontram os soldados.

           E é exatamente isso que o segundo parágrafo se propõe a fazer. Percorrendo o caminho que se estende desde a entrada da Escola, antes do portão da guarda, até a avenida dos murais, que se dirige às instalações internas, o texto conduz o leitor a um passeio pela paisagem, oferecendo-lhe uma visão panorâmica dessa cinquentenária instituição escolar. Os elementos selecionados para compor esse quadro foram os seguintes: "portão de entrada", "estrada bem-pavimentada", "coqueiros e pequenas palmeiras", "escultura de um avião de caça", "verdes encostas", "Serra da Mantiqueira", "galpões, alojamentos e prédios" e "painéis de azulejos".


 Ao longo de toda a alameda (...), enfileiram-se painéis de azulejo, nos quais reproduções de pinturas conhecidas, paisagens e cenas históricas remetem ao universo aeronáutico de nosso país.

             Agora imagine que o texto apresentasse tão somente esses elementos, sem qualquer qualificação ou apreciação que revelasse uma impressão pessoal por parte do observador. Para quem nunca esteve na Escola, não a conhece nem mesmo por foto, essa simples enumeração seria suficiente para que o leitor tivesse uma visão satisfatória da paisagem retratada? É claro que não. A enumeração de detalhes no máximo nos informa o que podemos encontrar na escola, mas não nos possibilita saber a sua disposição, onde cada elemento se situa, qual a distância entre eles, enfim, como eles se organizam no espaço físico e que impressões nos despertam.


 
A praça larga onde se realizam as formaturas exibe o prédio do Comando; todo branco e sisudo, ele é o símbolo máximo do respeito que inspira a vida militar.

          A descrição não é uma enumeração exaustiva de detalhes; pressupõe observação seletiva e linguagem rica e expressiva. Mas o que é, afinal, linguagem rica e expressiva? Você nota algo de diferente nas expressões "doce recepção da natureza", "sentinelas de nossas aspirações", "gigantesca e antiga muralha natural", encontradas no segundo parágrafo? Elas são exemplos dessa expressividade na linguagem, pois, como são frutos da subjetividade, já que revelam uma elaboração maior da linguagem chamada conotação, retratam um estado de espírito do observador diante do objeto observado ao mesmo tempo em que fornecem dados informativos do objeto.
          E você deve estar se perguntando: Já posso terminar o meu texto? Qual o tamanho ideal de um texto? É necessário mais informação além das que já foram fornecidas?
         Na verdade, existem textos dos mais variados tamanhos, com os mais variados objetivos. No nosso caso específico, estamos redigindo uma redação escolar, lembra-se? E como tal, o seu objetivo primeiro é ser um dispositivo pedagógico do qual o professor dispõe para diagnosticar o grau de aproveitamento e capacidade de expressão escrita do aluno.


Há lagos onde marrecos desfilam preguiçosos e bois mansos vêm matar a sede(...)


           Considerando isso, o avaliador espera que o aprendiz se empenhe o máximo possível para apresentar um resultado pelo menos satisfatório. Mas como saber o que é satisfatório para o professor? Em geral são tão exigentes...
          Calma! Não se apavore. Você já deve ter visto em sala de aula (e se ainda não, com certeza verá) o esquema básico de descrição, retirado do livro Técnicas básicas de redação, editora Scipione, 1996, da autora Branca Granatic, adotado, entre outros, como referência bibliográfica na apostila de Língua Portuguesa de nosso curso. Então, segundo esse esquema, um texto descritivo satisfatório deve conter quatro parágrafos, sendo o primeiro a introdução, os dois seguintes o desenvolvimento e o quarto a conclusão.
           Pronto! Agora você já sabe. É preciso redigir mais um parágrafo do desenvolvimento, o qual é, na verdade, o corpo do texto, pois é no desenvolvimento que se encontra a informação de fato relevante que será praticamente a responsável por classificá-lo como descritivo.

Foto: Professor Marcelo Menezes
(...) o maior e mais aprazível é coroado com a belíssima residência do Comandante da escola.

          Mas o que vou escrever agora? As minhas ideias se esgotaram e já não tenho mais o que escrever! Antes de tudo, respire fundo. Não deixe que o nervosismo tome conta de sua mente e embace suas ideias. No parágrafo anterior, você fez uma tomada dos elementos do plano de fundo, dando uma visão mais ampla da Escola. Mas existem outros detalhes que, numa tomada panorâmica, não são captados pelo observador. Agora, então, é hora de se ater a esses outros detalhes, mais próximos do olhar do observador. Vamos encontrá-los no terceiro parágrafo? São eles: "gramados irretocáveis e árvores floridas", "lagos", "marrecos", "bois", "residência do Comandante da escola", "praça larga", "prédio do Comando", "vila dos oficiais", "casas, de jardins frescos e bem-tratados", "eucaliptos", "galpões" e "complexos esportivos". Mas em que lugar se encontram exatamente esses elementos? Agora é a sua vez de ir ao texto e ler com mais atenção, reparando na elaboração da linguagem, na construção esmerada das frases e na seleção lapidar do vocabulário.

 A escola, por exibir gramados irretocáveis e árvores floridas por todas as partes, mais lembra um horto florestal.

           Puxa! Quanta coisa ainda havia para ser descrita! É verdade. E se você continuar a observar a sua escola, com certeza encontrará uma infinidade de outras coisas que sua percepção sensorial lhe permitirá captar. A nossa capacidade de expressão é infinita, mas, assim como é preciso começar o texto, é igualmente necessário saber encerrá-lo. Então, sem mais delongas, passemos para o quarto parágrafo, que é o da conclusão.
          E não é que finalmente chegamos ao fim? Nesse momento, o leitor, já tendo sido apresentado ao assunto e se inteirado dele, espera do produtor as suas palavras finais, que soam quase como uma despedida, nem tão longa que o deixe entediado e nem tão breve que o deixe sem rumo. No texto analisado, o observador se conscientiza do encerramento da sua empreitada e retoma as divagações iniciais, inspiradas pelo próprio tema, agora num tom de encerramento. Como não tem o encargo de fazer o retrato do objeto observado, pois isso já foi suficientemente explorado nos parágrafos do desenvolvimento, a conclusão como que se comunica com a introdução, conferindo ao texto uma coesão, necessária à unidade textual.
          E aí? Só para efeito de comparação, que tal fazermos uma leitura crítica do próximo texto, que também foi desenvolvido a partir do mesmo tema?

A vida de aluno

Sempre fui cuidadoso nas minhas escolhas para o futuro. Sabia que, para que pudesse proporcionar conforto e bem-estar para a família que pretendo construir com Janete, minha noiva, a boa escolha da carreira a ser seguida seria determinante. Por isso, não tive dúvidas quando recebi aquele pequeno folheto convidando a participar do processo seletivo para o curso de formação de sargentos de aeronáutica. Estudei muito, passei nos exames e aqui estou. Sou aluno de uma das mais respeitadas instituições de ensino técnico-militar do Brasil.
Todos os dias, levanto-me antes dos primeiros raios de sol. Mesmo com todo o frio que se sente a essa hora da manhã e com todo o sono, pulo da cama com o ímpeto de um guerreiro sedento de aventuras. "O dia será grandioso!", penso comigo. As notas dadas pelo corneteiro ainda não terminaram, mas minha cama já está pronta e, uniformizado, já me preparo para me dirigir ao rancho dos alunos, onde irei me abastecer com suculentas energias providas por um café da manhã bem-equilibrado. Ali, sucos, biscoitos, pães, leite e chocolate são servidos com presteza pela tropa que cuida atenciosamente de nossa alimentação. Incansáveis, a equipe procura atender a todos, de maneira que a satisfação seja a nota predominante. Uma vez satisfeitos, é hora de partir para a instrução.
Em forma, todos com botinas brilhantes e uniformes impecáveis, dirigimo-nos às salas de aula. Lá, temos um encontro marcado com o conhecimento, que os mestres procuram veicular com paciência e companheirismo. Matemática, física, química, português, inglês, todas matérias que, apesar de não serem mais novidades, já que é algo já visto ao longo de nossa formação acadêmica, ganham novos contornos pelas habilidades dos mestres. Com esforço e dedicação, cumprimos com mais essa missão. É, então, o momento de nos dirigirmos aos galpões.
Cada galpão foi construído para uma especialidade apropriada. Como pretendo ser mecânico de aeronaves, dirijo-me para o meu ninho, o galpão de BMA. Ali, motores e ferramentas estão expostos, revelando o teor de nosso trabalho. Cada engrenagem parece ganhar vida ao manuseio dos experientes instrutores. As ferramentas, algumas completamente desconhecidas por mim, ficam expostas sobre as bancadas ou descansam pacientemente nas estantes, prontas para se apresentarem no momento em que serão convocadas para o batente.
Logo após isso, almoçamos e seguimos para novas instruções. Mas não pense que nosso dia se acaba por aí. Não; há ainda a educação física, momento em que somos testados em nossa condição física. Contudo, há sempre espaço para uma boa partida de futebol ou vôlei. Por todas essas coisas é que eu posso dizer que a vida nessa escola é o verdadeiro refrigério de minha alma.


           Comentários
          Numa primeira leitura, percebemos que o primeiro parágrafo, o da introdução, é praticamente o mesmo em ambos os textos, no entanto, do segundo parágrafo em diante, o objetivo parece ser completamente diferente daquele do texto que acabamos de analisar.
          A começar pelo próprio título, "A vida de aluno", nota-se que o foco não está para a escola, segundo prevê o tema, e sim para a rotina vivida nela, sugerida pela palavra vida, núcleo da frase nominal.
          A propósito, embora não haja muita regra para se fazer título (como vários bons escritores não nos deixam mentir), em se tratando de uma descrição escolar, que, vale dizer, está sujeita a uma situação formal de avaliação, é aconselhável que o título enfoque o objeto propriamente dito da descrição, como em "Campo dos sonhos", em que o núcleo (o substantivo concreto "campo") refere-se diretamente à escola. Dessa forma, de antemão direciona-se o olhar do leitor para o objeto a ser retratado.
          De fato, a suposição inicial se confirma ao constatarmos que o produtor do texto se propõe a relatar suas ações corriqueiras de sua vida de aluno, facilmente recuperadas pelos verbos de ação como "levanto-me", "pulo", "me preparo para me dirigir", "irei me abastecer", "dirigimo-nos", "dirijo-me", "almoçamos", "seguimos", os quais, dispostos numa ordem cronológica, além de pontuarem a passagem do tempo, instauram entre si uma relação de anterioridade e de posterioridade, marca por excelência do texto narrativo.
          Embora inquestionavelmente bem escrito — pois as frases estão bem-estruturadas, o que garante a clareza das ideias e a fluência da linguagem, além de os parágrafos manterem uma relação harmônica entre si —, do ponto de vista da adequação à estrutura, "A vida de aluno" configura um típico exemplo de fuga ao tipo de texto. Ainda mais porque as ações comentadas acima se concentram justamente nos dois parágrafos do desenvolvimento, esgotando-se, portanto, qualquer possibilidade de descrição satisfatória.
         Mas e quanto ao "rancho dos alunos", às "salas de aula", aos "galpões", por acaso não são eles espaços físicos que nos dão informações de como é a escola? Sem dúvida que sim, mas, da maneira como foram tratados no texto, ocupam na verdade um segundo plano em relação ao objetivo principal do texto, que é enumerar as ações do relator.
          Se você ainda estiver em dúvida, faça a si mesmo o seguinte questionamento: Se você tivesse de pintar um quadro que retratasse a paisagem dessa instituição de ensino a partir das informações contidas no texto, qual dos dois textos lhe seria de fato necessário? A resposta só pode ser "Campo dos sonhos".
          No final das contas, descrever é quase como pintar; a diferença é que, no lugar do pincel, você usa a caneta e, no lugar das tintas e traços, as palavras.


         Bom, agora é com você. Se você é aluno(a) inscrito em nosso curso de redação, tente fazer um texto a partir do mesmo tema. Se não é, escolha uma paisagem e busque seguir os passos aqui apresentados.

         Bom treino!


"De tudo se faz canção" (Lô Borges, Márcio Borges e Milton Nascimento)

          Certa vez um tema descritivo gerou uma certa polêmica entre os alunos. Alguns diziam que era impossível se fazer uma descrição com ele. "Não há muito o que se falar sobre isso, professor!", reclamavam. Seguindo o que diz o verso do Clube da Esquina (De tudo se faz canção), eu respondi que tudo o que há no mundo é passível de ser descrito, até mesmo uma gota d'água. Pronto! Imediatamente fui desafiado a demonstrar o que havia acabado de dizer. E eles estavam certos: quem faz uma afirmação dessas tem o ônus de provar que ela é verdadeira.
         Pois bem, seguindo os parâmetros recomendados pelo esquema básico que utilizamos em nosso curso de redação, compus este texto:


A minúscula joia
Marcelo Ferreira de Menezes


hasemprealguem.blogspot.com

Um bando de maritacas avança barulhento sobre o azul esmaecido do céu entrecortado pelas sibilantes folhas das palmeiras que se contorcem com o roçar matreiro do vento. Perdendo-se no horizonte, as verdes aves parecem levar consigo a morna sensação de um dia que, cansado, se despede, deixando uma lacuna no meio da tarde para a entrada solene da noite, que não tarda a vir. O último canto das lavadeiras, apesar de há muito ter soado, ainda ecoa pelo silêncio do pátio de terra batida da vetusta lavanderia da senzala. Na parede de um dos tanques, pronunciando-se como uma lagarta rígida de cobre, uma torneira exibe uma espécie de jóia cujo valor é por todos ignorado. Mínima, transparente, luzidia e efêmera, uma gota de água se debruça na boca dessa torneira.
O relógio parece diminuir a velocidade de seus passos só para prolongar o tempo de vida de tão delicado cristal. Como uma lágrima que se recusa a percorrer os caminhos de uma face suavizada pela dor, a gota se mantém fixa, aparentemente satisfeita com sua concavidade de vidro polido. Meus olhos tateiam sua superfície convidativamente lisa à procura do reflexo da luz. Descubro, com surpresa, que sua pseudotransparência abriga — e somente olhos atrevidos podem descobri-la ali — toda a paisagem circundante, como um espelho macio de proporções diminutas. Estremeço ao imaginar que algo tão pequeno possa, unida a bilhões e bilhões de outras com a mesma proporção, se transformar em rios, cachoeiras e tempestades. Descubro-a com mais vida, na medida em que parece respirar, uma respiração que a vai dilatando aos poucos e vai, quase que imperceptivelmente, transformando-a numa espécie de órgão brilhante e trêmulo. Deve ser essa a aparência do espectro de um coração.
O tempo nos engana; ele se permitiu correr até mesmo para ela, que agora vai retomando seu destino natural num deslizar sereno e contínuo para fora da torneira, alongando suas formas cada vez mais, demonstrando suas qualidades de minério dúctil. Agora já é quase uma esfera, uma bola de cristal na qual descubro ainda, no exato instante em que se aparta de vez do cárcere no qual era refém, não os lances alvissareiros ou sombrios do meu futuro; não, que este só a Deus pertence. Mas, adornada pelo resto de brilho do sol que se instalou em sua superfície como um pequeno pedaço de ouro delicadamente posto sobre o diamante, descubro, eu dizia, minha própria face, toda banhada de assombro e mística felicidade.
Despenca pelos ares como estrela cadente o miúdo corpo de vidro úmido e gelatinoso, percorrendo veloz o espaço compreendido entre a boca negra da torneira e o túnel medonho e misterioso do ralo sobre o chão do tanque. Mais uma vez, ouve-se o cantar aborrecido das maritacas, enquanto a minúscula jóia desaparece depressa na garganta do dia, indo-se juntar a seus longínquos pares, para fundar os rios e, finalmente, desaparecer nos mares.

blogcafenobule.blogspot.com

E foi isso.
Um abraço.

Descrição de pessoa

Tema: O ciclista, prestes a cruzar a linha de chegada de uma corrida.


portaltendencia.com.br

A Locomotiva Carlos
Marcelo Ferreira de Menezes
(Texto produzido na aula do dia 03/03/11)

Desde minha infância, sempre demonstrei uma grande atração por esportes. Futebol e tênis sempre foram os meus prediletos. Por ter voltado minha atenção quase que exclusivamente para eles, sobre muitas outras modalidades confesso não possuir muita informação. Sobre ciclismo, por exemplo, eu não sabia absolutamente nada; até o dia em que fui ver meu amigo ciclista disputando a final do campeonato. Ele vinha comandando o pelotão, em sua última volta. A linha de chegada estava cada vez mais próxima.
Aos gritos de incentivo de todo o velódromo, que nesse momento passou a torcer exclusivamente por ele, Carlos parecia voar a alguns centímetros do chão. Seus olhos negros estavam iluminados por uma certeza alimentada durante meses de treino. O capacete azul e vermelho, combinando com as cores de seu uniforme, guardava muito mais do que sua cabeça de fios dourados: guardava um sonho. Suas pernas, envolvidas pela bermuda de lycra preta, exibiam o vigor dos músculos trabalhando como máquinas ávidas de vitória. Pela pele bronzeada descia um rio de suor, que se transformava em um spray a cada brusco movimento para os lados, na tentativa de manter o ritmo. Seus ombros largos pareciam maiores naquele momento, funcionando como uma verdadeira barreira que impedia a ultrapassagem dos adversários.
A vibração da arquibancada era maior, e Carlos parecia ouvi-la, transformando-a em gasolina para seu espírito. Ele sempre estivera confiante em sua vitória e demonstrava isso com seu comportamento sempre otimista e guerreiro. Nunca se perturbava e não deixava que qualquer um esmorecesse ao seu lado. Ali, naquelas pedaladas firmes e vigorosas, deixava exposta a tônica de sua personalidade: a determinação inabalável. Ele era uma locomotiva rompendo os trilhos da vida. Seus sonhos todos estavam concentrados naquela aparentemente frágil bicicleta de alumínio, que já se convertera numa extensão de todo o seu corpo. E o verdadeiro troféu que reluzia em seu coração era todo feito com o ouro da garra e da vontade de vencer.
A partir daquele dia, deixei de acompanhar futebol e tênis para me dedicar inteiramente ao ciclismo. Não somente como amante do esporte, que passei a ser, mas como ciclista. A Locomotiva Carlos, o grande campeão da copa daquele ano, se converteu em meu treinador, e hoje sonho em um dia ultrapassar também aquela tão almejada por todos os atletas linha de chegada.

Descrição de ambiente

Tema:

          A aconchegante sala de estar da casa de vovó.


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Emocionantes recordações
Aline Priscilla Ferreira da Rocha

Apesar da distância que os anos imprimem a todos os momentos, minhas lembranças continuam límpidas e fiéis a este maravilhoso lugar de poderosa magia. Voltar a entrar na antiga casa de vovó, em Bezerros, cidade de Pernambuco, onde passei boa parte de minha infância, trouxe-me emoções bastante fortes e fez brotar em mim uma saudade profunda de um tempo que não voltará jamais.
Era um ambiente bastante agradável, pelo delicioso perfume floral que por ali flutuava. A pouca luminosidade convidava os seus visitantes a momentos de conforto e reflexão, ampliando a sensação de tranquilidade ali reinante. O teto era revestido de gesso e apresentava detalhes que lembravam as austeras decorações das igrejas dos séculos passados. A porta era dupla, de madeira pintada com uma cor que já não era mais branca como antes, mas amarelada de tanta história. Ao lado dessa porta, uma janela enorme basculante, escondida por uma antiga cortina de veludo verde, permitia a visão de um pátio cuidadosamente decorado por vasos de vistosas plantas. O piso era da cerâmica avermelhada, que, por consequência do clima mais fresco dessa cidade interiorana, estava sempre muito frio, frio do qual vovó protegia nossos pés, sempre descalços, com coloridos tapetes de retalhos.
Os móveis, sempre limpíssimos, como limpíssimo era o coração da matriarca de nossa família, estiveram todo o tempo no mesmo lugar, desde o dia em que ali chegaram há muitos anos. Próximas a uma das paredes, ficavam duas cadeiras de balanço, aguardando serenamente pela chegada de meus avós, que ali faziam seu descanso vespertino ou nos contavam histórias emocionantes. Na parede oposta, reinava uma estante, que poderia muito bem ser considerada a avó dos móveis daquele cômodo, pois, assim como o coração de vovó, onde não havia limites para nos abrigar, ela aceitava sempre mais uma foto de alguém.  Era toda feita de uma madeira escura e sobre ela podiam ser contempladas fotografias de nossa família inteira. Havia mais fotos também em elegantes quadros que, de seus lugares, mostravam momentos felizes do dia do matrimônio de alguns casais: meus pais, meus tios, meus primos e, claro, vovô e vovó.
A sala de estar de vovó é o lugar perfeito para se ter recordações dessa época que já se faz tão longe, mas que continua a pulsar vividamente em minhas lembranças junto com cada batida de meu coração. Época que para mim e meus familiares sempre lembrará o sentido do amor e da união que deve haver em uma família, e por isso serei eternamente grata a Deus, que me deu a bênção de fazer parte da minha.

Descrição de paisagem

Tema:

A praia, naquela manhã de domingo, começava a receber seus primeiros banhistas.


           
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Oásis carioca
Texto composto em sala no dia 11/03/2011
Composição coletiva

A rotina de uma semana inteira de trabalho em uma grande cidade é verdadeiramente exaustiva. O domingo é o dia perfeito para aliviar toda a carga negativa acumulada, e a praia, com todos os seus elementos naturais e humanos, é a paisagem perfeita para recarregar as energias. Eu tenho uma paixão desde sempre pela Praia de Ipanema; para mim o verdadeiro oásis carioca.
Ipanema, aos primeiros raios de sol, parece uma espécie de plataforma coberta de ouro. O brilho do Astro Rei na areia faz cintilar cada grão, como se fossem pequenos diamantes espalhados caprichosamente pelo chão. Esta, a areia, ainda se encontra lisa, pois as marcas de pés, timidamente, apenas começam a aparecer. Aqui e ali, senhoras desfilam calmamente ou passam fazendo caminhadas. Os surfistas já se apresentam com suas pranchas coloridas, esperando por mais um dia em que surfarão a melhor onda de suas vidas. O mar geme docemente, e as gaivotas, por ainda estarmos em um momento de grande silêncio, conseguem cantar sem serem incomodadas. As ondas vêm e vão, levando consigo pequenos crustáceos e conchas antes habitadas, agora, casas vazias.
Os segundos vão passando e desenhando novas cores e formas à praia que inspirou tantos poetas. No calçadão, uma van vermelha descarrega um grupo de jovens turistas, que descem saltitando de alegria e trazendo muito alvoroço. As madames, com seus cães fofinhos, chegam para desfilar sua elegância. Os vendedores ambulantes, bem equipados e devidamente protegidos contra a promessa de um sol escaldante, já tentam chamar a atenção dos banhistas, com gritos e pregões em uma espécie de guerra irreverente. Pequenos siris percebem que esse é o momento de se abrigarem entre rochas e musgos. Lá onde as ondas acariciam a areia, crianças constroem seus castelos de areia e de sonhos, sob o olhar atento dos pais, que dividem essa atenção com a leitura de um jornal ou livro, ou mesmo com uma conversa com amigos. O cantar das gaivotas agora só com muito esforço pode ser ouvido. Um grupo de idosos se exercita com alegria de um lado, enquanto um outro grupo, de jovens bem-dispostos, treina suas habilidades no futevôlei ou no frescobol. Belas meninas buscam a perfeição de um bronzeado que se harmonize com as linhas perfeitas de seus corpos esculpidos nas academias. E toda essa paisagem se plasma em minha mente, levando-me ao relaxamento, tão desejado durante toda a semana.
Ipanema é um verdadeiro oásis na paisagem árida de prédios e caos urbano do Rio de Janeiro. Por isso é que nela consigo, por alguns momentos, esquecer as dificuldades que me aguardam ao longo da semana. Ao final desse domingo radiante, tenho a certeza de que, reabastecidas as forças, retornarei mais leve e confiante, pronto para a batalha que me espera de cara feia já na segunda-feira.

Proposta de descrição de pessoa

          Numa das aulas de descrição foi proposta a seguinte atividade de descrição de pessoa:

          Em sala de aula, foi apresentada aos alunos uma foto de uma menina afegã, retirada da capa da revista Geográfica Nacional. Depois, foram lidas as seguintes informações constantes da reportagem da mesma revista:
         “Ela se lembra de sua cólera diante daquele homem, um completo estranho. Ela jamais fora fotografada. E, quando voltaram a se ver, 17 anos depois, ela não havia sido fotografada mais nenhuma vez.
         O fotógrafo também se lembra daquele instante. A luz descia suave sobre um mar de barracas de um campo de refugiados no Paquistão. Foi no interior da tenda onde funcionava a escola que ele a viu pela primeira vez. Ao perceber o quanto era tímida, esperou para se aproximar. Até que ela consentiu que fizesse a foto. 'Eu não tinha ideia de que a dela seria diferente de tantas outras fotografias que fiz naquele mesmo dia', comenta Steve McCurry ao lembrar-se da manhã de 1984 em que registrava o drama dos afegãos.(...)
          A 'menina afegã' chama-se Sharbat Gula e é da tribo patane, uma das mais belicosas do Afeganistão.(...) Ela está com 28 anos, talvez 29 ou 30. Ninguém, nem mesmo ela, sabe com certeza. Nesse lugar sem registros, as histórias mudam como dunas de areia.
          A passagem do tempo e a vida dura apagaram a juventude de Sharbat.(...) 'Ela comeu o pão que o diabo amassou', comenta McCurry. 'Como tantos outros por aqui'. Foram 23 anos de guerra, com 1,5 milhão de mortos e 3,5 milhões de refugiados.
          O olhar da menina nos desafia e, acima de tudo, nos perturba. Não conseguimos nos desviar dele.(...)
          A rotina de Sharbat não muda, dia após dia. Ela acorda antes do amanhecer e faz suas orações. Depois vai buscar água no regato, cozinha, limpa e lava roupas. Sua vida é cuidar das três filhas. Robina está com 13 anos, Zahida, com 3, e Alia, o bebê, tem 1 ano. Uma quarta filha morreu ainda pequena. Sharbat nunca teve um dia de felicidade, com exceção talvez daquele em que se casou.(...)
          'Ontem e hoje, nosso contato foi através da lente. Desta vez ela achou mais fácil olhar para a lente do que para mim. É uma mulher casada, e não deve olhar para nenhum homem a não ser o seu marido.' ”

          Dadas essas informações, foi proposto o seguinte tema de descrição:

          A partir da fotografia e das informações fornecidas pela reportagem, faça um texto descritivo dessa mulher, imaginando-a 17 anos mais velha. Descreva-a do ponto de vista do fotógrafo, com o observador em 1ª pessoa.

          Recolhidos os textos, os alunos puderam então ver a foto da mesma mulher mais velha. Dos 38 textos produzidos em sala de aula, “Olhos verdes”, da aluna Jeniffer Candido de Carvalho e "Olhos de esmeralda", do aluno João Batista dos Santos Silva Júnior, foram os escolhidos. Embora tenham sofrido algumas poucas alterações, eles merecem ser apreciados não só pela estrutura, que segue rigorosamente o esquema básico, mas também pela informatividade e, sobretudo, pela qualidade da linguagem.




Olhos verdes
Jeniffer Candido de Carvalho

O tempo no deserto é contado também pelo mover das dunas. Por isso, para um ocidental, como eu, é tão difícil perceber que ele, o deserto, jamais será o mesmo, apesar de parecer imutável nas duas vezes em que o pisamos. Assim como faz com as dunas, o tempo esculpe rostos e transforma olhares. Dezessete anos se passaram, depois que a lente de minha câmera registrou uma das mais impressionantes fotografias do século. Nesse momento volto a me deparar com aqueles olhos verdes que um dia se destacaram dentre tantos olhares tristes que pude captar antes e depois daquele flash.
Sharbat Gula, agora com seus trinta anos, não mais exibe sua pequena boca desenhada, que motivo algum tinha para sorrir; agora, em seu lugar, uma boca ainda mais triste foi mudando da forma original para uma parábola que decresceu com o passar dos anos. Sua testa é pequena e franzida; seus cabelos estão ressecados e cobertos por panos, surrados como suas roupas; sua pele, queimada pelo sol que castiga sua terra.
É uma mulher forte que, mesmo diante da guerra, sobreviveu e permaneceu. Esposa dedicada e mãe amorosa, faz todas as tarefas domésticas; guarda seu olhar esverdeado para seu marido, único homem para quem pode olhar, e cuida de suas filhas, gotas de alegria em meio a uma vida seca de tristezas. Mesmo sendo privada de muitos direitos, Sharbat aguenta sua vida dura com uma força que encobre sua delicadeza e fragilidade feminina, assim como as longas vestes que cobrem seu corpo e o sufocante véu que aprisiona, durante todo o dia, parte de sua face.
Deparo-me com uma mulher e não mais uma menina. Agora, seu rosto, mudado pelo tempo, em quase nada me lembra aquela mocinha acuada de anos atrás, a não ser pelos olhos. Lindos olhos verde-esmeralda mesclados com raios amarelos que saem de suas pupilas. Perturbadores, intimidadores como os olhos de uma pintura antiga os quais me seguem sem se mexer; os quais, intactos, sobreviveram a todas as dificuldades. Olhos brilhantes, cujos raios dourados abrem espaço no verde predominante e iluminam mais que o sol ardente de sua terra. Tristes, sim, como tantos outros, mas que jamais se curvam ao solo para esquadrinhar a misteriosa dimensão do nada sobre a areia.

Postado em 18 de março de 2011.




Olhos de esmeralda

João Batista dos Santos Silva Júnior

Após as areias do tempo se depositarem, ano após ano, no fundo da ampulheta, tive a oportunidade de fitar novamente seus raros olhos de esmeralda. Munido de meu inseparável instrumento de trabalho, minha câmera de fotografar, adentrei aquele ambiente de ar carregado, no qual tudo me sugeria morosidade e estagnação. Mais uma vez, deixei que meu espírito fosse tocado pelo fogo do mistério contido em um simples olhar.
Sharbat continuava sendo o retrato da sua região. Sua face, moldada rusticamente pelo cinzel do sofrimento de anos de guerra e rotina desgastante, sustentava a imagem da forte mulher afegã. Os lábios rachados pelo calor e escassez de água permaneciam cerrados, devido à proibição de falar com outros homens. A timidez apresentada dezessete anos atrás deu lugar à determinação, segurança e coragem conquistadas paralelamente ao amadurecimento precoce de suas feições. Suas mãos calejadas de dona de casa abrigavam unhas sujas, porém bem-cortadas, mostrando sua modesta vaidade.
Seus olhos, no entanto, pareciam ter parado no tempo. Conservavam o brilho e a vivacidade dos olhos de uma menina. Penetravam minha alma através da lente da câmera. Ao admirá-los, pude sentir a esperança que o verde único de sua pigmentação carregava e, ao mesmo tempo, uma impotência me invadia, em saber tudo o que eles haviam presenciado. Notava-se, no entanto, que seu temperamento, ao contrário de seu olhar, sofrera mudanças severas. Eu já não estava mais diante daquela pequena afegã assustada, quase encolhida diante de um estrangeiro; era uma mulher altiva e senhora de uma impetuosidade soberanamente muda quem desafiava a lente e as luzes intermitentes de minha câmera.
O reencontro com a dona do olhar mais marcante que já fotografei me mostrou como um momento pode representar mais que anos de história e falar mais que palavras ditas e escritas. Para mim os seus olhos não são verdes, e, sim, é o verde que parece com seus olhos.

Postado em 27/04/2001.

Sinal fechado

Sinal fechado
Composto em sala, no dia 11/08/2011, 
em parceria com os alunos

O vento gelado penetrava as janelas de meu confortável Citroën denunciando que a frente fria prometida para aquele dia já se instalara. Era o fim de uma sexta-feira ingrata para mim; muitos aborrecimentos no trabalho, e eu só pensava em ir para cama cedo ou ficar só assistindo à televisão. Se eu pudesse, jamais voltaria para aquele inferno. O sinal fechou, e eu brequei bruscamente. Olhei para o lado; uma figura se destacava no meio de um monte de papéis: um mendigo. Aquela visão mudou totalmente o rumo de meus pensamentos.
Tentando juntar com suas mãos pretas e gretadas pelos calos os jornais ao seu redor para se proteger do frio que fazia, ele tinha na face as marcas das ingratidões da vida. Seus olhos eram de um castanho desbotado, assim como o azul esmaecido de seu casaco, já bastante devorado pelas pedras do chão. Usava uma touca preta, mas deixava à mostra seus cabelos compridos, já tocados pela mão do tempo. Apesar da aparência cansada, da vermelhidão da pele, devido provavelmente à combinação de muito sol e bebida, não parecia ser muito velho. Mesmo assim, uma barba crescida e amarelada acrescentava à sua imagem alguns anos a mais. Seus três cães deviam ser seus únicos amigos, e essa era a razão da profunda tristeza que transbordava de seu olhar.  
Havia marcas de restos de alimento por toda sua roupa. Alimento do qual ele sentia necessidade, mas que muitos lhe recusavam. Talvez sua maior fome fosse de atenção, de afeto. A voz rouca tentava acalmar os cães; rouquidão que poderia ser resultado de suas súplicas insistentes, e não atendidas. Seus olhos não os abandonavam. Aliás, seu olhar às vezes se detinha no nada ou nas linhas daquele chão imundo, parecendo vasculhar algo muito distante, perdido numa dimensão longínqua do passado. Sua contrariedade por estar ali ficava evidente a cada longo suspiro que dava com dificuldade.
Aquele sinal vermelho durou apenas alguns segundos, mas para mim pareceu toda uma vida; toda uma vida que aquele homem não tinha mais. O sinal abriu. Mas eu me detive ainda um pouco naquele momento de contemplação, apesar das buzinas nervosas atrás de mim. Já não maldizia meu trabalho. Eu sabia que, no trajeto até minha casa, encontraria muitos outros sinais fechados; mas eles iriam se abrir em poucos segundos. Para aquele mendigo, infelizmente, eles sempre estiveram fechados, e parecia não haver mais esperança de que um dia ele pudesse vir a encontrar um verde de nossa sociedade sempre apressada, acostumada a ver tudo através de uma cínica e confortável distância.