Inquietação sobre "Água Funda"

   Profª Drª fez graduação em Letras nas Faculdades Integradas Teresa D' Ávila. Possui mestrado e doutorado em Literatura pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Foi professora efetiva da rede estadual de ensino e lecionou em escolas particulares de ensino fundamental e médio durante 12 anos. Além disso, trabalhou como professora nos cursos de Letras, Pedagogia, Fonoaudiologia e Relações Públicas nas Faculdades Integradas Teresa D' Ávila. Escreveu vários artigos e organizou vários livros. Atualmente é professora efetiva da Força Aérea Brasileira (FAB).



Inquietação sobre Água Funda

              Há esbarrões que provocam grandes, indeléveis e produtivas inquietações. Quando cursava o terceiro ano de Letras, meu inesquecível professor de Literatura Latino-americana, Eduíno Orione, falou-me sobre um romance chamado Água Funda. Suas palavras ainda pululam em meus ouvidos: "Já leu Água Funda? É de uma autora aqui do Vale, de Cachoeira Paulista, que foi amiga de Guimarães Rosa." (ele, Eduíno, era/é apaixonado por esse escritor, talvez por isso, tenha esbarrado na autora do livro). "O livro é um primor", disse ele. "Olha, vale a pena ler." Encantou-me o título (os títulos sempre me encantam e a água sempre foi um sortilégio para mim). Corri para a biblioteca. A partir disso, inquietações provocadas por esse esbarrão fazem cócegas em meu cérebro. Fiz um projeto sobre ele para o Mestrado, mas não o aceitaram. Alegaram que a autora não era conhecida. Fiquei pasma. Como não conheciam Ruth Guimarães?! Até Guimarães Rosa a conhecia! Fora orientanda de Mário de Andrade! Era folclorista renomada. Seu nome fora citado na Encyclopédie Française de la Pléiade! Foi a única escritora latino-americana a receber tal homenagem! Mas eu precisava fazer o Mestrado, por isso mudei o projeto. Perdeu a universidade de ter um material quase que exclusivo sobre a autora, pois até hoje há poucos estudos sobre sua obra. Ganharam meus alunos do curso de Letras, pois eles foram o público-alvo das minhas inquietações sobre Água Funda.



Afinal, quais seriam essas inquietações? Muitas. Eis apenas uma.

Água Funda, romance publicado em 1946, divide-se em dois eixos diegéticos. O primeiro centra-se na história de Sinhá Carolina, dona da fazenda Olhos D' Água, localizada aos pés da Serra da Mantiqueira. Mulher austera, impregnada de beleza ímpar, casa-se, por amor, contra a vontade dos pais, e vive infeliz até a morte de seu marido. Dessa união, nasce Gertrudes, que se apaixona pelo filho do capataz da fazenda. Como Sinhá Carolina era contra essa relação, a filha foge e nunca mais retorna à casa materna. Viúva e sem Gertrudes, a proprietária de Olhos D' Água entrega-se à solidão até quando acolhe o filho do proprietário da fazenda Limoeiro. Sinhá resolve dar uma segunda oportunidade a si mesma e une-se a esse rapaz. Ela vende todos os bens que herdara do marido, inclusive Olhos D' Água, que se transforma em uma usina de açúcar, e parte com seu novo amor. Entretanto, mais uma vez, a infelicidade reinará sobre a vida de Carolina, pois ela é abandonada pelo filho do proprietário da fazenda do Limoeiro no mesmo dia em que parte com ele. O desespero e a vergonha enlouquecem Carolina, que desaparece por muito tempo. Quando retorna ao vilarejo onde ficava sua antiga fazenda, ela está sem memória e passa a viver de esmolas. O povo do local passa a chamá-la de Choquinha. 

O segundo eixo narrativo centraliza-se na história de Joca e Curiango. Esta é comparada a elementos da natureza e aquele é descrito como alguém que se comporta de forma estranha por sofrer de ataques. O narrador homodiegético1 alega que Joca desdenhou a Mãe de Ouro, entidade do folclore brasileiro, e, como castigo, passou a sofrer desse mal, do qual, no universo maravilhoso2 da instância narrativa, não há como escapar, já que essa criatura mítica é inexorável. Joca enamora-se por Curiango e ambos se casam, mas Joca enlouquece e torna-se um errante, pois, segundo ele, é chamado pela Mãe de Ouro para cumprir seu destino trágico. Depois desses eventos, tudo volta ao normal, pois

A gente passa nesta vida, como canoa em água funda. Passa. A água bole um pouco. E depois não fica mais nada. E quando alguém mexe com varejão no lodo e turva a correnteza, isso também não tem importância. Água vem, água vai, fica tudo no mesmo outra vez". (GUIMARÃES, 2003, p. 52)


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1 Esse tipo de narrador ocorre quando o foco narrativo está em primeira pessoa. Ele participa da instância narrativa, mas não é o protagonista da trama. Segundo Reis (1980), esse tipo de narrador veicula informações advindas da sua experiência diegética.


2 O termo maravilhoso foi empregado com o significado que Chiampi (1980) lhe atribuiu quando estudou o Realismo Maravilhoso. Segundo essa autora, o discurso maravilhoso não problematiza a dicotomia entre o real e o sobrenatural. Ele “desaloja qualquer efeito emotivo de calafrio, medo ou terror sobre o evento insólito. No seu lugar, coloca o estranhamento como efeito discursivo pertinente à interpretação não-antitética dos componentes diegéticos. O insólito, em ótica racional, deixa de ser o ‘outro lado’, o desconhecido, para incorporar-se ao real: a maravilha é (está) (n)a realidade. (CHIAMPI, 1980, p. 59).