Questão de lógica - 24/04/17

Baseado no poema Pardalzinho, de Manuel Bandeira.

Pardalzinho

O pardalzinho nasceu 
Livre. Quebraram-lhe a asa.
Sacha lhe deu uma casa,
Água, comida e carinhos.
Foram cuidados em vão
A casa era uma prisão.
O pardalzinho morreu
O corpo Sacha enterrou
No jardim; a alma, essa voou
Para o céu dos passarinhos! 
                           
                                (Manuel Bandeira)                                          



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Questão de lógica
Marcelo Ferreira de Menezes

Eu estava na varanda, acabando de limpar a gaiola de Waldick. Waldick Soriano; esse era o nome daquele canário belga. Canarinho bom! Era tão bonito o seu canto, que eu, por diversas vezes, o inscrevi em concursos e voltei para casa com medalhas, muitas medalhas. Dei uma tragada em meu cigarro e já ia colocar a gaiola de volta no prego, quando Sacha, minha filha, veio correndo.
Papai! Papai! Olha!
Mais uma boneca quebrada, filha? ― perguntei sem me virar.
Quando me voltei para ela, vi que a pequena carregava um pardalzinho ferido.
Ah! Você achou isso ― disse, avaliando as condições da assustada ave. A asa está quebrada, filha.
Você conserta, papai? Conserta?
Vamos ver, né, filha? ― eu respondi, quase já prevendo o que viria.
Durante uma semana, Sacha se empenhou em cuidados maternais com o pardalzinho. Dava-lhe comida, água, cobertores, contava-lhe histórias para dormir, dava-lhe, por que não dizer, seu amor. O bichinho parecia até que ia melhorando. Mas bicho que nasce livre...
Num domingo o pardal morreu. Sacha chorou copiosamente.
É assim, filha. Agora está melhor para ele.
Por quê, papai?
E eu, sem saber o que dizer:
Ora... ora, porque ele voou pro céu dos passarinhos!  ― falei com um entusiasmo meio bobo. 
Sacha enxugou as lágrimas e mirou o céu sem nuvens daquela manhã. Seu rosto se desanuviou. Já parecia ter outra coisa em mente.
Depois de nós dois, em nosso jardim, cuidarmos do pomposo funeral do pardalzinho, com direito a solo de flauta doce, que Sacha exigiu que eu arranhasse, fui lavar as mãos.
Quando saí novamente à varanda, meu coração quase pulou pela boca. Sacha havia subido em um banco, retirado a gaiola de Waldick da parede e, naquele momento, segurava-a com a portinhola aberta. Não deu tempo de nada. O canário alçou voo, contrastando seu corpo amarelo com o anil limpo do céu.
Sacha! O Waldick, Sacha! Por que você fez isso?
Pra ele fazer companhia ao pardalzinho, papai! Lá no céu dos passarinhos!
Eu, um pouco, ou bastante, contrariado, só pude concordar com ela:
Tá bom, filhinha. Tudo bem.